A criação do Prontuário Carioca da Saúde Mental (PCSM) nasce de um contexto de fortalecimento da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) do município do Rio de Janeiro. Com uma rede extensa e diversificada, composta por 33 Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), ambulatórios, unidades de emergência e equipes intersetoriais, o município já possuía uma trajetória consolidada de cuidado territorial e comunitário.

À medida que a rede se tornava mais complexa, surgiu a necessidade de integrar informações e garantir que o percurso de cada usuário(a) fosse acompanhado de forma contínua pelos diferentes pontos de cuidado. Entretanto, alguns fatores prejudicavam esse objetivo:
Essa realidade representava uma etapa natural de amadurecimento da política municipal, que trouxe um desafio estratégico: aprimorar a gestão da informação para qualificar o cuidado. Além disso, a fragmentação também ampliava desigualdades, visto que populações negras, periféricas e de baixa renda tinham menos acesso a tratamentos continuados, o que evidenciava a urgência de um sistema público capaz de integrar dados e garantir equidade no cuidado.


Diante disso, a informatização foi vista como o passo natural para fortalecer o cuidado, a gestão e a valorização do trabalho das equipes e do próprio SUS municipal. Os dados deixaram de ser apenas uma obrigação burocrática e um método de controle
para se tornarem ferramentas de decisão e de
aprimoramento do cuidado.

O contexto político e institucional da época reforçou essa oportunidade. Com restrições para ampliar estruturas físicas, a gestão municipal decidiu consolidar processos existentes e investir em integração e eficiência, desenvolvendo, com a Empresa Municipal de Informática (IplanRio), uma solução pública que garantisse autonomia tecnológica, segurança da informação e sustentabilidade do sistema no longo prazo.
Aprendizado: primeiro inicia-se o processo, depois o software. A base é a simplicidade.
Desafio: alinhar classificações e rotinas de registro entre equipes diferentes para gerar informação consistente.
Espírito Público: a integração e o compartilhamento de informações reduzem descontinuidades no cuidado.
Desafio: manter a qualidade dos dados à medida que o volume cresce e novas unidades entram no sistema.
Aprendizado: informação estruturada qualifica o cuidado e também a formação em serviço, gerando agenda de educação permanente.
Desafio: aprofundar o uso analítico sem aumentar a carga de registro.
O prontuário eletrônico que integrou a saúde mental no SUS do Rio de Janeiro
O Prontuário Carioca da Saúde Mental (PCSM) é o primeiro sistema eletrônico público e especializado em saúde mental do SUS. Criado em 2020 pela Superintendência de Saúde Mental e pela IplanRio, integra informações clínicas, sociais e territoriais de toda a rede em uma única plataforma segura, desenvolvida e mantida por servidores(as) municipais.
Registra acolhimentos, crises e PTS,
consolidando o percurso de cada usuário(a).
Conecta CAPS e Instituto Philippe Pinel, com acesso ao histórico em crises, evitando internações desnecessárias.
Registra atendimentos em abrigos municipais de pessoas em situação de rua.
Acompanha atendimentos itinerantes
junto à Atenção Primária.
Consolida relatórios e painéis para
monitoramento e planejamento da rede.
Resultados do Prontuário Carioca da Saúde Mental
Em quatro anos de implantação, o Prontuário Carioca da Saúde Mental (PCSM) se consolidou como uma infraestrutura essencial da política de saúde mental do Rio de Janeiro — integrando toda a rede municipal e transformando a gestão da informação em ferramenta de cuidado, planejamento e equidade.
Desenvolvido integralmente por servidores públicos, o PCSMl dispensou licenças privadas, garantindo autonomia tecnológica, segurança da informação e governança sobre dados sensíveis. Hospedado em ambiente web, pode ser acessado de qualquer lugar, inclusive em campo, permitindo o registro em tempo real e preservando o histórico do cuidado. Esse histórico é unificado pelo CPF, identificador único que eliminou cadastros duplicados e assegurou o reconhecimento do usuário em toda a rede.
Implantação do prontuário transformou a gestão e a prática do cuidado ao consolidar uma cultura de dados no SUS. Relatórios e painéis passaram a subsidiar decisões clínicas, capacitações, planejamento territorial e prestação de contas. Ferramentas como a busca ativa, que identifica usuários sem atendimento há mais de 30 dias, e os painéis de vulnerabilidade, com dados sobre moradia, renda, trabalho e vínculos, orientam decisões e ações intersetoriais. O registro deixou de ser burocrático para se tornar parte do cuidado: preencher o sistema significa produzir memória, proteger direitos e qualificar a prática, reafirmando que não existe dado frio.
A ampliação das funcionalidades consolidou o prontuário como ferramenta que integra níveis e políticas públicas. A conexão CAPS–emergência permite acesso imediato ao histórico do usuário, reduzindo internações e qualificando intervenções em crises. O módulo intersetorial aproxima saúde mental e assistência social, garantindo acompanhamento de pessoas em situação de rua, enquanto os deambulatórios registram a atuação itinerante das equipes, fortalecendo o cuidado no território. Relatórios para o sistema de Justiça viabilizam respostas rápidas e fundamentadas a defensorias, promotorias e juizados, ampliando transparência e proteção aos usuários.
O sistema foi construído de forma colaborativa, com base em demandas reais dos CAPS e ambulatórios. Um canal permanente entre a IplanRio, a Superintendência e as unidades garantiu escuta contínua e devolutivas ágeis, transformando sugestões em melhorias constantes. Em cada serviço, profissionais atuam como pontos focais, apoiando colegas e intermediando a comunicação com a gestão — estratégia que distribui o aprendizado e fortalece a apropriação do sistema pela rede.

O projeto foi impulsionado por uma combinação rara de lideranças complementares. A gestão da saúde mental garantiu patrocínio político e institucional, defendendo o prontuário dentro da Secretaria e assegurando estabilidade para seu desenvolvimento. Ao mesmo tempo, a coordenação técnica conduziu o processo de forma próxima às equipes, traduzindo fluxos assistenciais em linguagem de sistema. Essa integração entre visão política e conhecimento técnico criou um ambiente de confiança e continuidade, permitindo que o projeto evoluísse mesmo com recursos limitados.
A parceria entre a Superintendência de Saúde Mental e a IplanRio foi determinante para a viabilidade técnica e a sustentabilidade do projeto. A empresa pública municipal de informática ofereceu infraestrutura, equipe de desenvolvimento e hospedagem do sistema em data center próprio, garantindo autonomia tecnológica e segurança da informação. Essa cooperação permanente, com reuniões semanais, ciclos curtos de desenvolvimento e comunicação direta, assegurou a evolução contínua do prontuário, sem dependência de fornecedores externos.
O prontuário foi construído a partir da escuta ativa das equipes e da observação direta das rotinas de trabalho nos CAPS, ambulatórios e emergências. Cada campo, tela e relatório nasceu de demandas reais dos profissionais, que passaram a ver suas sugestões incorporadas rapidamente ao sistema. Essa devolutiva constante criou confiança, engajamento e senso de autoria, transformando o prontuário em um instrumento coletivo de aprimoramento do cuidado e da gestão.
O contexto político e fiscal do período impediu a ampliação da rede, mas abriu espaço para reorganizar fluxos e fortalecer processos internos. Diante da impossibilidade de expandir estruturas físicas, a gestão direcionou esforços para integrar serviços, qualificar registros e aprimorar a gestão da informação. Essa decisão transformou uma limitação estrutural em oportunidade de modernização institucional, permitindo à rede amadurecer e consolidar práticas mais eficientes e colaborativas.


PASSO 1
PASSO 3
PASSO 2
PASSO 4
PASSO 5
A experiência carioca mostra que é possível transformar a gestão em saúde mental a partir de alguns princípios-chave:
