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Desenvolvimento Social

Prontuário Carioca
de saúde mental

O desafio de integrar a Rede
de Atenção Psicossocial

A criação do Prontuário Carioca da Saúde Mental (PCSM) nasce de um contexto de fortalecimento da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) do município do Rio de Janeiro. Com uma rede extensa e diversificada, composta por 33 Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), ambulatórios, unidades de emergência e equipes intersetoriais, o município já possuía uma trajetória consolidada de cuidado territorial e comunitário.

À medida que a rede se tornava mais complexa, surgiu a necessidade de integrar informações e garantir que o percurso de cada usuário(a) fosse acompanhado de forma contínua pelos diferentes pontos de cuidado. Entretanto, alguns fatores prejudicavam esse objetivo:

  • Os registros eram feitos em formato físico e local;


  • As informações raramente circulavam entre unidades e gestores;


  • Cada serviço mantinha seu próprio prontuário, dificultando uma visão integrada do cuidado.

Essa realidade representava uma etapa natural de amadurecimento da política municipal, que trouxe um desafio estratégico: aprimorar a gestão da informação para qualificar o cuidado. Além disso, a fragmentação também ampliava desigualdades, visto que populações negras, periféricas e de baixa renda tinham menos acesso a tratamentos continuados, o que evidenciava a urgência de um sistema público capaz de integrar dados e garantir equidade no cuidado.

No cenário anterior ao PCSM, havia:

  • 33 CAPS, ambulatórios e emergências com informações fragmentadas;
  • 6 a 8 meses de força-tarefa com cerca de 10 profissionais para consolidar dados de uma única unidade;
  • Equipes administrativas em tempo integral dedicadas à digitação manual de registros e faturamento;
  • 
Mais de 800 usuários(as) cadastrados(as) por serviço, impossibilitando o acompanhamento histórico;
  • 
Acesso inexistente ao histórico clínico fora do horário de funcionamento;

O processo vigente atendia às exigências administrativas, mas apresentava limitações importantes:

  • Não permitia o acompanhamento ágil da trajetória dos(as) usuários(as);
  • Limitava a análise de padrões e a compreensão do perfil da população atendida;
  • Tornava lenta a consolidação de informações e a geração de indicadores;
  • Comprometia o planejamento e a avaliação das políticas públicas;

    Comprometia a consistência dos dados e dificultava 
a prestação de contas aos órgãos de controle 
e à sociedade.

Diante disso, a informatização foi vista como o passo natural para fortalecer o cuidado, a gestão e a valorização do trabalho das equipes e do próprio SUS municipal. Os dados deixaram de ser apenas uma obrigação burocrática e um método de controle
para se tornarem ferramentas de decisão e de
aprimoramento do cuidado.

Com o sistema eletrônico,

tornou-se possível:

  • Relacionar informações sobre sofrimento psíquico, vulnerabilidades sociais e desigualdades territoriais;
  • Planejar políticas baseadas em evidências e demandas reais do território com maior precisão;
  • Acompanhar o cuidado de forma integrada entre unidades e equipes;
  • Reduzir duplicidades no atendimento;
  • Tornar visível o esforço cotidiano dos profissionais que sustentam o cuidado psicossocial.

O contexto político e institucional da época reforçou essa oportunidade. Com restrições para ampliar estruturas físicas, a gestão municipal decidiu consolidar processos existentes e investir em integração e eficiência, desenvolvendo, com a Empresa Municipal de Informática (IplanRio), uma solução pública que garantisse autonomia tecnológica, segurança da informação e sustentabilidade do sistema 
no longo prazo.

Como o Prontuário Carioca da Saúde Mental ganhou forma, escala e maturidade

2018-2019

Mapeamento do trabalho
e desenho inicial

  • Reuniões técnicas para traduzir o cuidado em rotinas e campos de registro.
  • Definição das informações essenciais para acompanhamento longitudinal de usuários(as).
  • Criação do cadastro básico (pessoa, serviço e profissional).
  • Escolha estratégica por um sistema único via web, acessível a toda a rede.
  • Consolidação da base conceitual antes do
  • desenvolvimento do software.

Aprendizado: primeiro inicia-se o processo, depois o software. A base é a simplicidade.

2020

Concepção e primeiros pilotos

  • Parceria formal entre a Superintendência de Saúde Mental e o IplanRio.
  • Desenvolvimento do sistema com equipe pública reduzida.
  • Cadastro mínimo definido, com CPF como chave unificadora.
  • Testes em duas unidades piloto: CAPSi da Ilha (100% digital) e CAPS Manuel de Barros.

2021

Expansão progressiva e ajuste fino

  • Equipe incorporada à IplanRio, garantindo infraestrutura pública permanente para hospedagem e manutenção do sistema.
  • Ampliação do uso para mais unidades de CAPS.
  • Treinamentos presenciais e formação de multiplicadores(as) locais.
  • Ajustes rápidos com base nas devolutivas das equipes.
  • Transição para a adoção definitiva do sistema nas unidades até abandonarem os prontuários físicos.

Desafio: alinhar classificações e rotinas de registro entre equipes diferentes para gerar informação consistente.

2022

Integração com a rede e fortalecimento do cuidado

  • Automatização do faturamento, reduzindo a tarefa para uma hora.
  • Integração entre CAPS e emergência passa a garantir continuidade do cuidado em crises.
  • Criação do módulo intersetorial com Assistência Social para atender pessoas em situação de rua.
  • Relatórios e busca ativa passam a orientar decisões clínicas e de gestão.

Espírito Público: a integração e o compartilhamento de informações reduzem descontinuidades no cuidado.

2023

Cobertura total e
padronização de rotinas

  • Prontuário ativo nos 33 CAPS, 10 ambulatórios e na emergência do Instituto Philippe Pinel.
  • Desenvolvimento do módulo de internação (implantado em 2025).
  • Padronização de registros e relatórios para planejamento e prestação de contas.

Desafio: manter a qualidade dos dados à medida que o volume cresce e novas unidades entram no sistema.

2024

Consolidação e reconhecimento

  • O projeto vence o Prêmio Espírito Público 2024 em Gestão e Planejamento.
  • A rede utiliza relatórios para mapear padrões territoriais e necessidades formativas.
  • Início do desenvolvimento de Business Intelligence (BI) para análises avançadas.
  • Formação permanente e novos ciclos de treinamento.

Aprendizado: informação estruturada qualifica o cuidado e também a formação 
em serviço, gerando agenda de educação permanente.

2025

Maturidade de uso
e gestão pelo dado

  • Profissionais utilizam o prontuário para revisão de Projeto Terapêutico Singular (PTS), acompanhamento de indicadores de seguimento e organização de agendas de busca ativa.
  • Direções e referências técnicas utilizam relatórios para supervisionar práticas, distribuir esforços e apoiar decisões clínicas e territoriais.
  • O sistema permanece dinâmico, com incrementos pontuais a partir de solicitações das unidades.

Desafio: aprofundar o uso analítico sem aumentar a carga de registro.

INFORMAÇÃO QUE CUIDA


O prontuário eletrônico que integrou a saúde mental no SUS do Rio de Janeiro



O Prontuário Carioca da Saúde Mental (PCSM) é o primeiro sistema eletrônico público e especializado 
em saúde mental do SUS. Criado em 2020 pela Superintendência de Saúde Mental e pela IplanRio, integra informações clínicas, sociais e territoriais de toda a rede em uma única plataforma segura, desenvolvida e mantida por servidores(as) municipais.

COMO O SISTEMA FUNCIONA

Atendimento Clínico

Registra acolhimentos, crises e PTS,
consolidando o percurso de cada usuário(a).

Emergência

Conecta CAPS e Instituto Philippe Pinel, com acesso
ao histórico em crises, evitando internações desnecessárias.

Intersetorial

Registra atendimentos em abrigos municipais de pessoas em situação de rua.

Deambulatórios

Acompanha atendimentos itinerantes
junto à Atenção Primária.

Gestão e Planejamento

Consolida relatórios e painéis para
monitoramento e planejamento da rede.

Resultados do Prontuário Carioca
da Saúde Mental

Vector (15)

Em quatro anos de implantação, o Prontuário Carioca da Saúde Mental (PCSM) se consolidou como uma infraestrutura essencial da política de saúde mental do Rio de Janeiro — integrando toda a rede municipal e transformando a gestão da informação em ferramenta de cuidado, planejamento e equidade.

  • 100% da RAPS integrada ao sistema.

  • Rede formada por 37 CAPS, 10 ambulatórios e emergência do Instituto Philippe Pinel.
  • 
Mais de 94 mil prontuários e mais de 800 usuários(as) de serviços de grande porte.
  • Saúde e Assistência Social trabalhando conjuntamente no cuidado de pessoas
em situação de rua por meio do módulo intersetorial.
  • Equipes administrativas liberadas de digitação manual para atuar como qualificadoras de dados.
  • Acesso remoto 24h ao histórico clínico em situações de emergência.
  • Diminuição do tempo entre atendimento e decisão clínica.
  • Redução da perda de informações.
  • Desenvolvimento público por servidores(as) municipais.
  • Primeiro prontuário eletrônico público especializado em saúde mental no Brasil.
Sïmbolo Azul

Por que o Prontuário Carioca de Saúde Mental representa o Espírito Público?

Tecnologia pública que conecta e protege:

Desenvolvido integralmente por servidores públicos, o PCSMl dispensou licenças privadas, garantindo autonomia tecnológica, segurança da informação e governança sobre dados sensíveis. Hospedado em ambiente web, pode ser acessado de qualquer lugar, inclusive em campo, permitindo o registro em tempo real e preservando o histórico do cuidado. Esse histórico é unificado pelo CPF, identificador único que eliminou cadastros duplicados e assegurou o reconhecimento do usuário em toda a rede.

Gestão orientada por evidências e cultura
de dados:

Implantação do prontuário transformou a gestão 
e a prática do cuidado ao consolidar uma cultura 
de dados no SUS. Relatórios e painéis passaram 
a subsidiar decisões clínicas, capacitações, planejamento territorial e prestação de contas. Ferramentas como a busca ativa, que identifica usuários sem atendimento há mais de 30 dias, 
e os painéis de vulnerabilidade, com dados sobre moradia, renda, trabalho e vínculos, orientam decisões e ações intersetoriais. O registro deixou 
de ser burocrático para se tornar parte do cuidado: preencher o sistema significa produzir memória, proteger direitos e qualificar a prática, reafirmando que não existe dado frio.

Atendimento sistêmico 
e visão integrada 
do cuidado:

A ampliação das funcionalidades consolidou o prontuário como ferramenta que integra níveis e políticas públicas. A conexão CAPS–emergência permite acesso imediato ao histórico do usuário, reduzindo internações e qualificando intervenções em crises. O módulo intersetorial aproxima saúde mental e assistência social, garantindo acompanhamento de pessoas em situação de rua, enquanto os deambulatórios registram a atuação itinerante das equipes, fortalecendo o cuidado no território. Relatórios para o sistema de Justiça viabilizam respostas rápidas e fundamentadas a defensorias, promotorias e juizados, ampliando transparência e proteção aos usuários.

Desenvolvimento colaborativo e multiplicadores(as) locais:

O sistema foi construído de forma colaborativa, com base em demandas reais dos CAPS e ambulatórios. Um canal permanente entre a IplanRio, a Superintendência e as unidades garantiu escuta contínua e devolutivas ágeis, transformando sugestões em melhorias constantes. Em cada serviço, profissionais atuam como pontos focais, apoiando colegas e intermediando a comunicação com a gestão — estratégia que distribui o aprendizado e fortalece a apropriação do sistema pela rede.

Fatores determinantes para o sucesso do programa

1. Liderança política
e técnica comprometidas: 

O projeto foi impulsionado por uma combinação rara de lideranças complementares. A gestão da saúde mental garantiu patrocínio político e institucional, defendendo o prontuário dentro da Secretaria e assegurando estabilidade para seu desenvolvimento. Ao mesmo tempo, a coordenação técnica conduziu o processo de forma próxima às equipes, traduzindo fluxos assistenciais em linguagem de sistema. Essa integração entre visão política e conhecimento técnico criou um ambiente de confiança e continuidade, permitindo que o projeto evoluísse mesmo com recursos limitados.

2. Parceria estratégica com a IplanRio:

A parceria entre a Superintendência de Saúde Mental e a IplanRio foi determinante para a viabilidade técnica e a sustentabilidade do projeto. A empresa pública municipal de informática ofereceu infraestrutura, equipe de desenvolvimento e hospedagem do sistema em data center próprio, garantindo autonomia tecnológica e segurança da informação. Essa cooperação permanente, com reuniões semanais, ciclos curtos de desenvolvimento e comunicação direta, assegurou a evolução contínua do prontuário, sem dependência de fornecedores externos.

3. Co-construção com servidores(as) da rede:

O prontuário foi construído a partir da escuta ativa das equipes e da observação direta das rotinas de trabalho nos CAPS, ambulatórios e emergências. Cada campo, tela e relatório nasceu de demandas reais dos profissionais, que passaram a ver suas sugestões incorporadas rapidamente ao sistema. Essa devolutiva constante criou confiança, engajamento e senso de autoria, transformando o prontuário em um instrumento coletivo de aprimoramento do cuidado e da gestão.

4. Restrição orçamentária como
janela de oportunidade:

O contexto político e fiscal do período impediu a ampliação da rede, mas abriu espaço para reorganizar fluxos e fortalecer processos internos. Diante da impossibilidade de expandir estruturas físicas, a gestão direcionou esforços para integrar serviços, qualificar registros e aprimorar a gestão da informação. Essa decisão transformou uma limitação estrutural em oportunidade de modernização institucional, permitindo à rede amadurecer e consolidar práticas mais eficientes e colaborativas.

Planejamento e Diagnóstico

  • Mapeie processos existentes: levante como as informações são registradas hoje, quem as utiliza 
e onde estão os pontos de falha ou retrabalho.
  • Coleta de dados estruturada: reúna evidências administrativas (quantidade de prontuários físicos, tempo de resposta, duplicidade de registros, perda de histórico etc.).
  • Diagnóstico participativo: envolva profissionais
de diferentes funções (gestores e técnicos administrativos) para entender demandas 
e limitações.
  • Benchmarking: estude experiências similares, tanto em outras áreas do SUS quanto em redes municipais ou estaduais com sistemas já digitalizados.
  • Construa um cronograma conjunto com base no calendário escolar e na capacidade da equipe.

Governança, segurança e suporte

  • Formalize papéis: registre, em ato administrativo, 
as responsabilidades de cada área (saúde mental, TI, gestão de dados).
  • Defina fluxos de atualização: estabeleça calendário de versões, revisões e mecanismos de priorização de demandas.
  • Implemente controle de acessos: garanta níveis diferenciados de permissão conforme perfil profissional — psicólogos(as), médicos(as), técnicos(as) administrativos(as).
  • Preveja suporte técnico permanente: treinamento contínuo e atendimento remoto ajudam a consolidar o uso diário.

Construção Colaborativa

  • Mapeie o “chão de fábrica”: observe o cotidiano dos serviços para que o sistema traduza os fluxos reais de atendimento.
  • Oficinas de cocriação: reúna profissionais da saúde mental, equipe de TI e gestores para definir o que precisa ser registrado, como e por quê.
  • Proximidade técnica: mantenha desenvolvedores(as) e pessoas usuárias em contato direto, sem camadas burocráticas intermediárias.
  • Iteração contínua: lance versões incrementais e corrija a partir do uso real.

Formação e adesão das equipes

  • Capacite de forma prática: treinamentos presenciais e on-line devem partir de situações reais, simulando registros e consultas.
  • Identifique multiplicadores(as): profissionais que dominam o sistema e podem formar novos(as) colegas.
  • Acompanhe o uso: monitore relatórios de registro, identifique padrões de uso e ofereça suporte personalizado.
  • Reforce o propósito: comunique o impacto do prontuário no cuidado e na segurança do paciente.

Monitoramento, avaliação e melhoria contínua

  • Avalie indicadores operacionais: número de acessos, tempo médio de preenchimento, completude dos dados.
  • Acompanhe o impacto assistencial: reduções de internações, continuidade do cuidado e respostas em crise.
  • Colete feedback regularmente: ouça equipes e pessoas usuárias e registre sugestões.
  • Atualize com agilidade: transforme demandas em melhorias no decorrer de ciclos curtos (quinzenais ou mensais).

A experiência carioca mostra que 
é possível transformar a gestão em 
saúde mental a partir de alguns princípios-chave:

  • Relacionar informações sobre sofrimento psíquico, vulnerabilidades sociais e desigualdades territoriais;
  • Planejar políticas baseadas em evidências e demandas reais do território com maior precisão;
  • Acompanhar o cuidado de forma integrada entre unidades e equipes;
  • Reduzir duplicidades no atendimento;
  • Tornar visível o esforço cotidiano dos profissionais que sustentam o cuidado psicossocial.