O sofrimento psíquico entre adolescentes é uma das faces mais sensíveis e silenciosas das desigualdades brasileiras. Depois da pandemia da Covid-19, escolas de todo o país viram um aumento dos casos de automutilação, ideação suicida e isolamento social entre jovens. Em Abaetetuba (PA), esse cenário ganhou contornos ainda mais urgentes nas escolas estaduais de ensino médio, mobilizando tanto o sistema de saúde quanto a rede de educação em busca de respostas.
No primeiro semestre após a retomada das aulas presenciais, 40 adolescentes foram encaminhados aos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) do município, por tentativa de suicídio ou automutilação. O número revelava a dimensão do problema e era agravado pela conhecida fragilidade dos sistemas de notificação e acolhimento. A subnotificação era regra, não exceção, e a resposta institucional ainda estava fragmentada.

Nas escolas, educadores(as) identificavam mudanças significativas no comportamento dos(as) estudantes. Adolescentes que antes interagiam normalmente passaram a apresentar isolamento social progressivo, desinteresse pelas atividades pedagógicas e dificuldade de estabelecer vínculos com colegas e professores(as).
Alterações na apresentação pessoal também chamavam a atenção: uso constante de roupas largas e capuzes mesmo em dias quentes, resistência ao contato físico e manifestações de sofrimento emocional intenso quando abordados por educadores(as). O sofrimento concentrava-se entre estudantes do ensino médio, principalmente na faixa etária de 15 a 18 anos.
A dificuldade para abordar o tema com adolescentes e familiares, além do desconhecimento sobre fluxos de encaminhamento para a rede de saúde mental, era comum entre os(as) profissionais das escolas. A formação inicial de professores(as) não contemplava instrumentalização para identificação de sinais de risco, acolhimento inicial ou articulação com serviços especializados.
Muitas famílias interpretavam comportamentos de automutilação como manifestações passageiras da adolescência, o que acabava por minimizar a gravidade do sofrimento emocional vivenciado pelos(as) jovens. A necessidade de intervenção era reconhecida, na maioria das vezes, quando o quadro já se encontrava agravado. Mesmo assim, as famílias enfrentavam dificuldades para acessar serviços especializados devido à oferta limitada e às barreiras geográficas características do território. A Coordenação Municipal de Saúde Mental recebia pedidos de ajuda, mas não dispunha de estrutura suficiente para responder. Faltavam fluxos integrados entre os setores de saúde, educação e assistência social, e o tema ainda era envolto em tabu e medo.


O Papo Cabeça nasceu como resposta prática e humanizada a esse cenário: um projeto que transforma escuta em política pública e vulnerabilidade em potência de transformação coletiva
Espírito público: Diante do aumento expressivo dos casos, a equipe da Secretaria Municipal de Saúde de Abaetetuba escolheu dar atenção ao problema, não aos limites institucionais. Em articulação com as redes municipal e estadual de educação, viabilizou a realização das primeiras ações de cuidado, transformando dados alarmantes em respostas concretas, mesmo em um cenário de estruturas ainda em construção.
Aprendizado: Adolescentes não aderem a palestras tradicionais e a abordagem deve se voltar para as causas do sofrimento psíquico. Os(as) jovens precisam ser protagonistas e não público passivo.
Aprendizado: A apropriação da metodologia pelas escolas garante sustentabilidade para além da presença da equipe de saúde mental. É importante transferir tecnologia social para as escolas, fortalecendo a capacidade institucional das redes.
Espírito público: A institucionalização exige, muitas vezes, a capacidade de passar o bastão. Quando um projeto é construído com visão de política de Estado, e não de gestão, ele sobrevive às mudanças, porque é compartilhado, apropriado e sustentado por múltiplos atores.

Houve redução de 67,5% nos casos graves encaminhados à urgência e à emergência: 40 registros no primeiro semestre de 2022 e 13 no mesmo período de 2023.
Em 2023, 62 adolescentes em situação de risco foram identificados nas rodas e escutas individuais e encaminhados para a rede de cuidado. 3.
Mais de 40 coordenadores(as) pedagógicos(as) capacitados(as) atuam como pontos focais de saúde mental em suas escolas.
As unidades criaram protocolos internos de acolhimento e encaminhamento e passaram a realizar notificações regulares de casos, conforme a legislação.
Os encontros, realizados em 12 escolas, envolveram 850 alunos(as).

A capacidade técnica instalada permanece ativa, garantindo continuidade e autonomia local.
Educadores relatam melhoria significativa no clima institucional e no comportamento dos(as) estudantes, que passaram a procurar espontaneamente professores(as) e coordenadores(as), fortalecendo vínculos de confiança.
Apresentado no 8º Congresso Brasileiro de Saúde Mental, o projeto foi finalista das mostras Pará Aqui tem SUS e Brasil Aqui tem SUS.
Em 2024, o Papo Cabeça foi finalista do Prêmio Espírito Público, na categoria Saúde Mental.
O projeto foi incorporado à Secretaria Municipal de Educação, resultando na contratação de psicólogos(as) e assistentes sociais para atuação permanente nas escolas.
Há previsão de aumento da escala do projeto para atender estudantes do ensino fundamental, com o objetivo de atuar preventivamente entre estudantes mais jovens.

O Papo Cabeça inova ao colocar adolescentes no centro das discussões sobre saúde mental. As rodas de conversa substituem palestras expositivas por dinâmicas participativas, nas quais os(as) próprios(as) jovens escolhem temas e compartilham experiências. As facilitadoras mediam o diálogo, oferecendo informações qualificadas sobre saúde mental, direitos e rede de proteção em um ambiente seguro e horizontal, que permite abordar temas sensíveis, como violências, preconceitos e sofrimento emocional, de forma natural e acolhedora.

A iniciativa desloca o cuidado em saúde mental para o cotidiano escolar. As rodas ocorrem durante o horário de aula, inclusive em escolas rurais e ribeirinhas, acessíveis apenas por embarcação, assegurando equidade no acesso e presença ativa do poder público. Essa proximidade desmistifica o atendimento especializado e fortalece vínculos entre estudantes te profissionais de saúde.

Coordenadores(as) pedagógicos(as) tornaram-se multiplicadores(as), servindo como referências na identificação de sinais de risco e no acolhimento inicial de estudantes. Essa capacidade técnica permanece nas escolas, fortalecendo a rede de proteção local.
O projeto conecta saúde, educação e assistência social, articulando CAPS, CRAS, CREAS, Conselhos Tutelares e projetos culturais e esportivos. Essa integração garante resposta integral às diferentes dimensões do sofrimento juvenil.


As escolas incorporaram a metodologia, realizando rodas periódicas e criando espaços permanentes de escuta. O Papo Cabeça tornou-se parte da cultura escolar e referência na promoção da saúde mental na educação pública.
O principal fator de sucesso foi a articulação efetiva entre Coordenação de Saúde Mental, escolas estaduais e assistência. A Coordenação reconheceu que não poderia responder sozinha à magnitude do problema e que escolas são parceiras essenciais, porque são onde adolescentes manifestam precocemente sinais de sofrimento. As escolas, por sua vez, solicitaram apoio técnico em razão da falta de equipes psicossociais próprias e porque enfrentavam dificuldades para lidar com situações envolvendo comportamento suicida e automutilação. Essa convergência de necessidades viabilizou uma parceria que não dependeu de recursos financeiros adicionais, mas de disposição para construir respostas conjuntas a partir de capacidades existentes em cada setor.


A Secretaria Municipal de Saúde disponibilizou embarcações e veículos para que
a equipe alcançasse escolas em ilhas e ramais. Esse apoio logístico foi fundamental para viabilizar intervenções em territórios distantes.
A autorização da Unidade Regional Integrada de Educação do Estado para que
a equipe municipal atuasse em escolas estaduais também foi decisiva. Essa cooperação entre esferas de governo permitiu que a solução fosse construída
a partir de recursos e capacidades existentes.
O projeto foi executado por uma equipe enxuta, com disponibilidade limitada, mas altamente comprometida, qualificada e com experiência em saúde mental: composta por uma psicóloga, uma assistente social e uma pedagoga. A qualificação técnica das profissionais da Coordenadoria de Saúde Mental permitiu que identificassem adequadamente situações que exigiam encaminhamento imediato e iniciassem o processo de escuta mesmo sem equipes específicas de saúde nas escolas.
O projeto estruturou-se fundamentalmente em torno da escuta de adolescentes durante as rodas, das escolas sobre suas dificuldades e das famílias sobre situações vivenciadas em casa.
Essa disposição para ouvir e acolher permitiu que a metodologia fosse ajustada ao longo do processo. A equipe manteve-se atenta às respostas dos adolescentes e às devolutivas das escolas, realizando modificações quando necessário.
A transferência do projeto para a Secretaria Municipal de Educação em 2025 consolida sua continuidade como política pública. A formação das novas equipes escolares pela Coordenação de Saúde Mental e a contratação de psicólogos(as) e assistentes sociais criaram bases para aplicação permanente da metodologia no ensino fundamental. O suporte técnico segue garantido por meio do ambulatório itinerante, que realiza atendimentos periódicos nas escolas.

Confira um caminho simplificado com base na experiência do Papo Cabeça, em 4 passos:

PASSO 1
PASSO 3
PASSO 2
PASSO 4
PASSO 5
O Papo Cabeça mostra que cuidar da saúde mental da juventude vai além de protocolos: requer presença, escuta e coragem para atravessar silêncios.
A experiência de Abaetetuba revela que a prevenção nasce do encontro entre escola e território, quando profissionais transformam dados alarmantes em vínculos reais. Cada roda de conversa reafirma que ouvir é um passo fundamental da política pública. Projetos como este constroem redes de proteção eficazes e comunidades mais empáticas, capazes de agir coletivamente.
Nota de cuidado: Este projeto aborda temas relacionados à saúde mental. Se você ou alguém que conhece precisa de apoio emocional, ligue 188 (CVV – Centro de Valorização da Vida), disponível 24h, gratuitamente.
