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Profissional com 50 anos de serviço público é homenageada pelo Prêmio Espírito Público

Com 50 anos dedicados à administração pública da Paraíba, a diretora de Recursos Humanos Maria das Graças Aquino Teixeira da Rocha será homenageada pela Republica.org no Prêmio Espírito Público por sua trajetória exemplar no serviço público.

Há 50 anos, a cena se repete e, ainda assim, nunca é igual: Maria das Graças Aquino Teixeira da Rocha, mais conhecida como Graça Aquino, acorda às 6h da manhã, toma café, chega ao trabalho por volta das 8h30. Sai no fim da tarde, às vezes à noite. Teve dias — e viradas — em que a Secretaria de Administração da Paraíba não dormiu: “Já passei o fim de semana inteiro no serviço”, lembra.

Na conta, estão a mudança de governos, reestruturações de órgãos, a implantação de sistemas, a urgência dos prazos. Mas, sobretudo, a convicção que a acompanha desde setembro de 1974, quando entrou no Estado como auxiliar de administração: o serviço público pode, e deve, entregar resultado.

Hoje, aposentada do cargo efetivo desde 1998 e em funções comissionadas, Graça é diretora executiva de Recursos Humanos da Secretaria de Estado da Administração. Sua equipe administra a folha de cerca de 120 mil servidores ativos e inativos, cuida de direitos e deveres, concursos e carreiras, estatuto e código de ética, saúde do servidor e transformação digital. “A gente trabalha para que a máquina funcione com regularidade e respeito às pessoas”, explica. Em novembro, ela receberá uma homenagem da República.org, durante a cerimônia do Prêmio Espírito Público, pelo conjunto da obra: 50 anos de dedicação ao serviço público.

De auxiliar a diretora

Quando começou, em 1974, o ingresso foi como auxiliar (nível médio). Em 1978, já formada em Administração, prestou concurso e tornou-se administradora. Nunca mais saiu do eixo da gestão de pessoas. “Foi onde me encontrei”, conta. Em paralelo, por oito anos deu aula de Administração à noite numa universidade privada de João Pessoa, chegando a coordenar estágios e orientar monografias. A dupla jornada de professora e gestora moldou o rigor técnico que ela levaria para dentro do Estado.

Desde o início, Maria ocupou funções de direção. “Muito cedo me chamaram para cargos comissionados”, lembra. A experiência prática se entrelaçou à leitura de leis, decretos e regimentos. Ela ajudou a escrever o arcabouço que organiza a vida funcional de quem trabalha no Estado da Paraíba: estatuto, planos de carreira, regras de progressão, avaliações de desempenho. “É a parte mais árida, mas é onde a política pública vira regra clara para todo mundo.”

Gestão pública de resultado

Há uma frase, ouvida de um gestor no passado, que a incomoda até hoje: ‘O serviço público é o câncer da nação’. “Aquilo doía”, afirma. “Porque a gente sabia que não precisava ser assim.” Meio século depois, Maria descreve um virar de chave: a profissionalização das equipes, o pagamento em dia, a cultura de avaliação e metas, a transparência nas compras, a digitalização de processos e a aproximação com os órgãos de controle. “Hoje o servidor é visto como principal capital da administração. E a gestão pública aprendeu a se inspirar no que há de bom na iniciativa privada sem perder a essência do interesse público.”

A virada não veio sozinha. Teve decisão política, gestão de projetos e, não raro, maratonas de trabalho. Ela enumera: a centralização de compras com regras claras; a publicidade dos gastos; a adoção de sistemas unificados; concursos periódicos em áreas essenciais; e o foco em carreiras estruturadas, com progressão baseada em desempenho e qualificação.

 

Plano de carreiras

Entre 2007 e 2019, Maria participou de um dos movimentos que mais orgulham sua trajetória: a implantação de 45 Planos de Cargos, Carreiras e Remunerações (PCCR). “Antes, muita gente entrava no nível inicial e se aposentava sem estímulo para crescer”, observa. Com os novos PCCR, surgiram classes, referências, critérios de progressão e regras de avaliação. Magistério, segurança pública (civil, penal, militar e bombeiros), auditores, controladoria, administração de nível superior, técnicos de políticas públicas — cada carreira com sua especificidade e padrão mínimo comum: previsibilidade, transparência e horizonte de desenvolvimento.

O efeito é prático: menos arbitrariedade, mais previsibilidade de vida para quem planeja uma trajetória no Estado. “Plano de carreira é política pública de gente”, resume. “Organiza ambição, recompensa esforço, dá rumo para a formação continuada.”

 

Descentralização

Ainda em 2007, a equipe liderada por sua secretaria redesenhou a estrutura do Poder Executivo. Saiu a lógica “fechada”, concentrada nas cúpulas, e entrou um desenho “aberto”, com níveis de decisão distribuídos (direção superior, assessoramento, gestão, gerências). O objetivo: descentralizar o cotidiano das decisões e dar fluidez à execução, preservando controles e responsabilidades. “A estrutura deixou de engarrafar tudo no topo. É uma técnica, mas muda a cultura”, explica.

Com a casa reorganizada, vieram as atualizações do Estatuto do Servidor e a implantação do Código de Ética, além de um atendimento de saúde ao servidor no próprio Centro Administrativo. “Etapas que parecem burocráticas, mas protegem pessoas e o interesse público”, diz. Em 2024, ajustaram regras de cessão de servidores para dar mais nitidez às transições entre órgãos.

A implantação do eSocial no setor público talvez tenha sido o projeto mais espinhoso, relembra Graça Aquino. “O sistema nasceu com lógica de empresa privada. Trazer isso para o Estado exigiu rever folha, redesenhar layouts, mapear regras de cada carreira”, conta. Hoje, a Paraíba opera com mais de 80% das informações consolidadas na plataforma — “um patamar alto, que só alguns estados alcançaram”, diz, com orgulho. A mudança reduziu redundâncias, padronizou dados e melhorou a interlocução previdenciária e tributária.

Outro salto recente foi a criação, em 2023, da Secretaria Executiva de Modernização e Transformação Digital, transversal a toda a administração. Sob sua liderança, a gestão implantou um sistema eletrônico de tramitação de documentos e aposentou o processo físico. “Acabou a cena das cestas com 70 processos indo para despacho. Tudo é digital, com rastreabilidade, prazo e histórico.”

Entre as marcas da atual gestão, ela destaca os concursos em áreas-chave (educação, segurança, finanças e controle) e o pagamento em dia. “Parece óbvio, mas regularidade é política pública”, diz. Nas entrelinhas, há um pacto com o cotidiano: progressões e promoções saem do papel, carreiras andam, folha fecha no mês. “Isso sustenta a confiança.”

Do alto de 51 anos de serviço público, Maria acompanha o debate nacional sobre reforma administrativa. “Faz sentido priorizar carreiras essenciais de Estado e permitir modelos mais flexíveis para atividades-meio, sempre com controle e transparência”, opina. Vê avanços na lei de compras, na integração com órgãos de controle e na cultura de dados abertos. “A sociedade passou a enxergar, em tempo real, o que se compra, o que se paga. Isso muda o comportamento.”

Prêmio

Paula Frias, coordenadora de Dados da República.org, conta que conheceu Maria das Graças Aquino durante o Panorama de Gestão de Pessoas (PGP), aplicado na Paraíba, e logo ouviu relatos sobre o papel central que a servidora exercia na equipe: uma verdadeira guardiã da memória institucional. “Ela dedicou a vida ao serviço público. Foi servidora, se aposentou e, mesmo assim, voltou à administração comissionada para continuar contribuindo na área de gestão de pessoas”, diz.

Segundo Paula, a escolha de Graça para o prêmio se deve não apenas aos 50 anos de trajetória, mas também ao fato de ter se tornado uma referência respeitada, constantemente chamada a integrar comissões e processos seletivos, pela profundidade de seu conhecimento. “Ela representa o que há de mais admirável no serviço público: o compromisso contínuo com o bem comum e a construção coletiva. Ao mesmo tempo, sua história nos faz refletir sobre a importância de pensar em sucessão, em como preparar novas gerações para continuar esse legado de dedicação e excelência”, conclui.

Vida pessoal

Casada há 45 anos com Josenal Teixeira da Rocha, auditor fiscal do Estado, Graça concilia família e repartição desde os anos 1980. Os dois filhos — Josenal Júnior e Juliana — viraram médicos; vieram as netas. “O serviço público exige renúncias, mas a gente aprende a equilibrar. Muitas vezes eu pegava as crianças, deixava em casa e voltava para fechar o dia.” A lembrança vem com doçura. “Sem estrutura doméstica, ninguém sustenta vida pública longa.”

Em João Pessoa, Maria mora de frente para o mar. Diz que vê a praia mais pela janela do que com o pé na areia — exceção feita a dezembro, quando a família veraneia em Camboinha, faz passeio de barco até a Areia Vermelha e abre um vinho ao entardecer. Nos fins de semana, gosta de ir para a casa de campo. Depois de uma cirurgia cardíaca, diminuiu o ritmo dos exercícios, mas se prepara para retomar. Cinema virou programa de sofá com as netas. Lê, sobretudo, livros de gestão pública. “A gente precisa estar sempre estudando.”

A neta mais velha, espirituosa, volta e meia pergunta: “Vovó, quando você vai se aposentar pra vir cozinhar pra gente?” Graça ri e promete que essa hora chega. “No fim do governo atual, penso em encerrar o ciclo. Talvez siga com consultorias. Gosto do que faço e isso pesa para ficar. Mas toda história tem começo, meio e fim.”

Amigos de longa data

Colega de longa data na Secretaria de Administração da Paraíba, Jesualda Apolinário, 62 anos, chefe de gabinete, fala de Graça Aquino com a naturalidade de quem convive há mais de três décadas com uma referência e uma amiga. “A gente vai e volta juntas todos os dias; começa o trabalho no carro e continua resolvendo no telefone. A Graça é doação, humildade e otimismo. Acorda querendo aprender, enfrenta os desafios com serenidade e inspira quem está por perto”, diz.

Mesmo atuando em setores distintos, Jesualda testemunha o impacto da colega na rotina do órgão — “tudo passa por ela: folha, carreira, gente” — e se emociona ao lembrar do cuidado de Graça com todos os servidores, “sempre com atenção, sem distinção”. As duas estreitaram laços fora do trabalho, compartilhando fins de semana e encontros em família. Para Jesualda, a homenagem pelos 50 anos de serviço apenas confirma o que ela vê diariamente: “Trabalhar com a Graça é um privilégio. Quando ela sair, eu também penduro as minhas chuteiras.”

Para Maria Valéria Tavares Zenaide, 70 anos, assistente técnica da Diretoria de Recursos Humanos, falar de Graça Aquino é lembrar de uma parceria de 22  anos, nascida em 2003, quando ambas integraram a equipe responsável pela estrutura organizacional do Poder Executivo da Paraíba. “Foi uma experiência que marcou para sempre nossa convivência”, conta. Elas se reencontraram em 2016, na Comissão de Reforma do Governo, e desde então trabalham lado a lado na condução das políticas de gestão de pessoas do Estado.

“Graça domina recursos humanos como ninguém. Seu conhecimento vem de longe, mas o olhar é sempre para o futuro”, afirma Valéria. Para ela, o período atual da gestão pública paraibana é “único” na valorização do servidor, e muito disso se deve ao estilo de liderança de Graça. “O servidor é tratado com dignidade, justiça e humanidade. Ela nasceu para lidar com pessoas”, resume a colega de trabalho.