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Desenvolvimento Social

Nas ramas da esperança

Nordeste

, PE

O que motivou a criação do Nas Ramas da Esperança

A fome vai além da ausência de comida na mesa. Ela se manifesta de forma silenciosa, na carência de nutrientes que comprometem o desenvolvimento das pessoas e a vitalidade do território.

Conhecida como fome oculta, essa forma de insegurança alimentar ocorre quando há ingestão calórica suficiente, porém falta de micronutrientes essenciais como ferro, zinco e vitamina A.

 

No semiárido brasileiro, essa vulnerabilidade alimentar está entrelaçada à vulnerabilidade produtiva

A escassez hídrica, agravada pelas mudanças climáticas, tem encurtado ainda mais os períodos de chuvas, enquanto os solos degradados e o predomínio do sequeiro limitam a produção agrícola.

Sem assistência técnica continuada, sementes adaptadas ou políticas de incentivo à diversificação, muitos agricultores abandonam seus quintais produtivos.

Esse quadro é agravado por um déficit de políticas públicas na ponta. Moradores de assentamentos e acampamentos experienciavam um distanciamento no acesso a serviços públicos nas áreas rurais.

Após a Covid-19 e o aumento da vulnerabilidade social, programas de transferência de renda e cestas básicas mitigavam a fome imediata, mas não enfrentavam a dimensão estrutural da insegurança alimentar.

Políticas agrícolas tradicionais garantiam a manutenção mínima da produção, mas não incorporavam a qualidade nutricional como objetivo explícito.

Em síntese, o problema público que o projeto enfrentou combinava:

  • Cenário de insegurança alimentar grave;
  • Vulnerabilidade produtiva do semiárido;
  • Baixa diversidade e densidade nutricional da dieta regional;
  • Gargalo de transferência tecnológica para a agricultura familiar;
  • Lacuna de políticas intersetoriais que conectem produção, nutrição e proteção social.

Insegurança alimentar & famílias agricultoras

Antes mesmo da pandemia, os dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares de 2017-2018 já indicavam que quase metade (48,3%) dos domicílios em Pernambuco vivia algum grau de insegurança alimentar e que 21,8% dos lares de agricultores(as) familiares e pequenos produtores(as) rurais eram acometidos pela fome.

O impacto da crise sanitária agravou esse cenário, atingindo especialmente as famílias agricultoras e as comunidades mais pobres.

Em 2022, a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional apontou que mais de 33,1 milhões de pessoas figuravam na situação mais grave de insegurança alimentar no Brasil.

Em Petrolina (PE), território do projeto, um terço da população vive insegurança alimentar, o que impõe responsabilidade direta sobre ações estratégicas de combate à fome.

 

Havia também uma lacuna entre ciência e território

Desde os anos 2000, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e a Rede BioFORT desenvolviam alimentos biofortificados, mas a transferência tecnológica não alcançava a agricultura familiar por falta de estrutura, recursos e logística.

O resultado era um gargalo entre conhecimento e prática, em que a inovação científica não se convertia em tecnologia social capaz de chegar ao campo e melhorar a alimentação das famílias.

 

Foi este contexto que motivou a criação do Nas Ramas da Esperança: uma resposta prática ao desafio de transformar inovação agrícola em segurança alimentar, aproximando a ciência da terra e a alimentação da dignidade.

Solução construída para transformar inovação agrícola em segurança alimentar

2009 - 2010

A semente da ideia

  • Início das pesquisas no laboratório vivo de produção e desenvolvimento de biofortificados, localizado em uma área de 1,5 hectares, no Campus Petrolina Zona Rural do IFSertãoPE, Petrolina, PE.
  • Início da colaboração com a Embrapa para envio de variedades biofortificadas para teste no semiárido.
  • Primeiras aproximações com as comunidades agrícolas da região para diagnóstico de necessidades, como o assentamento Água Viva, vizinho ao campus do Instituto.

Aprendizados: O contato com as associações agrícolas começa muito antes das primeiras variedades de batata-doce biofortificadas. Essa construção de confiança foi fundamental para que o projeto tivesse legitimidade e condições de implementação nos anos que seguiram.

2011 - 2015

Pesquisa de base e primeiros passos

  • Testagem de variedades de batata-doce biofortificada.
  • Certificação da iniciativa como Tecnologia Social pela Fundação Banco do Brasil.
  • Mais de 200 agricultores visitam o campo de plantio do IFSertão para conhecer as variedades, mesmo que ainda estejam em fase de teste.

Desafios: Ausência de financiamento robusto e fragilidade na manutenção da infraestrutura foram uma barreira nos anos iniciais do projeto que contava com umaequipe fixa de dois bolsistas e um pesquisador apenas.

2016 - 2020

Adaptação técnica e desafio cultural

  • Primeira variedade de batata-doce adaptável ao semiárido, do tipo Beauregard, com alta concentração de beta-caroteno e menor tempo de produção.
  • Baixa aceitação da população ao sabor da variedade de batata-doce adaptada.
  • Retorno à exploração de novas variedades, com mais 14 genótipos enviados pela Embrapa para testes.

Espírito Público: Ao longo de todo o projeto, a equipe seguiu produzindo alimentos no espaço público do Campus do IFSertão. Durante a COVID-19, essa produção foi fundamental para a alimentação da população do entorno.

2021 - 2022

Ciclo de expansão

  • Captação de R$ 199 mil no Edital da Fundação de Amparo à CIência e Tecnologia do Estado de Pernambuco (FACEPE) nº 11/2021 – Contribuição da Ciência e Tecnologia para Redução da Pobreza Extrema em Pernambuco.
  • Aceleração dos ciclos produtivos e identificação de variedade de batata-doce biofortificada, doce e de alta produtividade (CIP-BRS Nuti).
  • Inclusão oficial do projeto na Rede BioFORT de Alimentos Biofortificados, coordenada pela Embrapa.
  • Disseminação de 271 mil ramas-sementes e 15 toneladas de alimentos; implantação de 1.305 novas áreas em 65 associações. Aumento da abrangência do projeto para nove estados e 125 municípios.

Desafios: Garantir rastreabilidade e acompanhamento técnico das mudas em larga escala, revisitando o modelo de implementação para formar multiplicadores e funcionar como “pólo”.

2023 - 2024

Reconhecimento e institucionalização

  • Lei Municipal nº 3.657/2023, sancionada em Petrolina, inclui os alimentos biofortificados na merenda escolar;
  • Finalista do Prêmio Pacto Contra a Fome (UNESCO).
  • Vencedor do Prêmio Espírito Público 2024.
  • Prêmio Pesquisadores Brazil Conference at Harvard & MIT 2024, o projeto foi apresentado no evento em Boston nos EUA.
  • Continuidade do apoio às comunidades e difusão dos alimentos biofortificados em cursos e dias de campo.
  • Captação via emenda parlamentar de R$ 700 mil para ampliar infraestrutura e replicar tecnologia em outros municípios.

Aprendizado: Importância da visibilidade para atração de recursos para o projeto.

2025

Adaptação técnica e desafio cultural

Apoio para institucionalização do Programa de Quintais Produtivos Biofortificados em Caruaru (PE), primeira política municipal do país a reconhecer oficialmente os biofortificados como instrumento de segurança alimentar.

Espírito Público: Os aprendizados do Nas Ramas da Esperança motivaram outros(as) servidores(as) a multiplicarem o cultivo de biofortificados com uso cada vez mais intencional dos espaços públicos, provando melhorias e aprofundamento contínuo de políticas que contribuam para a segurança alimentar e nutricional no país.

Inovação agrícola aplicada para gerar segurança alimentar

Pesquisa, diagnóstico e seleção de variedades
    • Testes de adaptabilidade, produtividade e teor nutricional de variedades biofortificadas (batata-doce, milho, feijão e mandioca) em campo experimental público.
    • Cooperação técnica com a Embrapa e a Rede BioFORT para validar cultivares resistentes ao semiárido.
    • Diagnóstico territorial sobre solo, clima, hábitos alimentares e vulnerabilidade nutricional das comunidades rurais.
    • Seleção de variedades com maior aceitação cultural, menor tempo de produção e maior impacto nutricional.
Escala, articulação e institucionalização
    • Doação e circulação dos alimentos no território, com destinação do excedente para merenda escolar, feiras e cozinhas comunitárias.
    • Articulação com prefeituras, secretarias e parlamentares para financiar infraestrutura e expandir alcance.
    • Construção de marcos legais e políticas públicas municipais para garantir continuidade e escala da solução.
    • Visibilidade nacional para atrair parceiros, recursos e reconhecimento, consolidando o projeto como tecnologia social replicável.
Produção e mobilização das comunidades
    • Implantação de viveiros irrigados e manejo agroecológico (compostagem laminar, adubação e preparo do solo).
    • Doação de mudas e de ramas-sementes certificadas a associações rurais, assentamentos e pequenos(as) produtores(as).
    • Oficinas e dias de campo para formação em preparo do solo, irrigação e boas práticas de cultivo.
    • Formações culinárias e fortalecimento de quintais produtivos e hortas escolares.
Acompanhamento técnico contínuo
    • Visitas periódicas de acompanhamento e orientação pelas equipes do projeto e das secretarias municipais parceiras.
    • Monitoramento do desempenho das variedades e da produtividade local.
    • Atuar como pólo de referência, descentralizando a produção e replicação do conhecimento.

Dados que refletem o impacto e a transformação gerada pelo projeto

Público beneficiado

  • Presença em 125 municípios de nove estados brasileiros (PE, BA, CE, SE, AL, PB, PI, PA e MG)
  • 33 municípios atendidos apenas em Pernambuco
  • Mais de 1.200 agricultores e agricultoras familiares, cerca de um terço de mulheres
  • Atendimento a comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas, assentamentos da reforma agrária e grupos de fundo de pasto

Produção e distribuição

  • 350 mil mudas e 21 toneladas de alimentos distribuídos
  • 1.305 novas áreas implantadas em 65 associações e assentamentos rurais
  • 271 mil ramas-sementes produzidas apenas em 2022
  • Estimativa de R$ 40 milhões em renda gerada a partir da multiplicação das mudas e comercialização do excedente
  • Custo médio de implantação de área produtiva até 10x menor que projetos agrícolas convencionais

Parcerias institucionais

  • Participação de 51 entidades parceiras, entre universidades, ONGs, institutos federais e secretarias municipais
  • Integração à Rede BioFORT/Embrapa, com acesso a novas cultivares e suporte técnico

Políticas públicas e reconhecimento

  • Lei Municipal nº 3.657/2023, sancionada em Petrolina, que inclui alimentos do projeto na merenda escolar
  • Parceria formal com o Governo de Pernambuco para inserção dos biofortificados em programas de cozinhas comunitárias
  • Decreto municipal de 2025 em Caruaru que institui o Programa de Quintais Produtivos Biofortificados
  • Finalista do Prêmio Pacto Contra a Fome (UNESCO, 2023)
  • Vencedor do Prêmio Espírito Público 2024, categoria Desenvolvimento Social
  • Reconhecimento internacional como Pesquisador Destaque na Brazil Conference Harvard & MIT, 2024

Por que o Nas Ramas da Esperança representa o espírito público?

Ciência pública aplicada à segurança alimentar

O projeto estruturou, dentro de um campus agrícola federal, o primeiro banco público de multiplicação de alimentos biofortificados voltado a agricultores familiares. A iniciativa integra ensino, pesquisa e extensão, tornando a produção científica uma ferramenta direta de combate à fome.

Integração entre ensino e comunidade

O campus foi transformado em espaço de formação prática. Agricultores, estudantes e técnicos participam juntos do preparo do solo, do plantio e da colheita, consolidando o vínculo entre instituição pública e território.

Tecnologia social baseada em biofortificação

A solução combina variedades biofortificadas de batata-doce, feijão, milho e mandioca com técnicas de recuperação de solos degradados, como a compostagem laminar. Essas práticas aumentam a produtividade e reduzem a dependência de insumos externos, adequando-se às condições do semiárido.

Geração de políticas públicas

A experiência originou e inspirou marcos legais como a Lei Municipal n.º 3.657/2023 (Petrolina) – inclusão dos alimentos biofortificados na merenda escolar –, a Parceria com o Governo de Pernambuco (2024) para fornecimento de biofortificados às cozinhas comunitárias, e o Decreto Municipal (2025 – Caruaru) – instituição do Programa de Quintais Produtivos Biofortificados.

Articulação intersetorial

O Nas Ramas da Esperança mantém cooperação permanente entre IFSertãoPE, FACEPE, Embrapa, universidades, secretarias municipais e mais de 60 associações, assentamentos e ONGs. Essa governança colaborativa garantiu legitimidade, escala e continuidade das ações.

Transparência e participação social

O projeto realiza prestações de contas semestrais durante os Dias de Campo e mantém acompanhamento público dos resultados, com participação de pesquisadores, bolsistas e lideranças comunitárias em todas as etapas.

Inovação agrícola aplicada para gerar segurança alimentar

2. Ciência aplicada e construção de tecnologia social

O projeto transformou resultados de pesquisa em uma prática agrícola concreta, adaptada às condições do semiárido. A cooperação entre o IFSertãoPE, a Embrapa e a Rede BioFORT permitiu que as variedades biofortificadas de batata-doce fossem testadas, validadas e ajustadas em campo.

Essa combinação de rigor técnico e experimentação participativa resultou em uma tecnologia social acessível, capaz de gerar impacto nutricional e produtivo em diferentes contextos.

3. Viabilidade financeira e reconhecimento institucional

O apoio da FACEPE foi o ponto de virada para a consolidação e ampliação do projeto. Até então mantido com recursos limitados e esforço voluntário, o financiamento permitiu expandir a produção e distribuir mudas para 125 municípios, estruturando uma rede de difusão regional.

O reconhecimento em prêmios nacionais e internacionais, como o Pacto Contra a Fome, com apoio da UNESCO, reforçou a legitimidade da iniciativa e ampliou sua visibilidade para novas parcerias e fontes de captação.

 

1. Enraizamento territorial e protagonismo comunitário

Desde o início, o projeto se estruturou em diálogo direto com as comunidades rurais do entorno do IFSertãoPE. Antes mesmo da chegada de recursos, agricultores e agricultoras locais foram os primeiros parceiros — ajudaram a limpar o terreno experimental, preparar o solo e manter as áreas produtivas ativas.

Essa relação inicial, marcada por confiança, pertencimento e valorização dos saberes locais, foi o alicerce para o desenvolvimento da pesquisa aplicada. A escuta constante e o respeito à cultura alimentar do território garantiram que a inovação científica nascesse enraizada na vida das pessoas.

4. Resiliência no tempo e adaptabilidade

A consolidação do projeto foi resultado de um longo processo, marcado por tempos muitas vezes distintos entre pesquisa científica e necessidades urgentes do território. Antes que a pesquisa estivesse madura para gerar resultados científicos ou produtivos, a equipe manteve uma presença contínua no campo, apoiando os agricultores em necessidades rotineiras e na reativação das áreas produtivas do IFSertãoPE.

Essa atuação próxima e colaborativa, baseada em pequenos ganhos sucessivos, como o cultivo inicial de mudas, o fortalecimento dos quintais e a troca de saberes locais, consolidou a confiança mútua necessária para o avanço da pesquisa. Mais do que um projeto técnico, o Nas Ramas da Esperança foi uma experiência de gestão relacional e paciência institucional, que transformou o tempo em aliado e o território em coautor da solução.

5. Conhecimento público e possibilidade de replicação

A decisão de manter todos os métodos, materiais e resultados em acesso aberto consolidou o caráter público e democrático do projeto. Sem patentes nem cobrança de licenças, as tecnologias desenvolvidas podem ser replicadas e adaptadas por outras instituições públicas e comunitárias. Essa abertura garante não apenas a difusão técnica, mas também a sustentabilidade política e ética de uma iniciativa que entende a ciência como bem comum.

O que podemos aprender com o Nas Ramas da Esperança?

Pesquisar, diagnosticar e selecionar variedades

  • Realize diagnóstico territorial com dados sobre insegurança alimentar, solo, água e hábitos alimentares locais
  • Identifique alimentos regionais com valor cultural e potencial de biofortificação (ex.: batata-doce, milho, feijão, mandioca)
  • Estabeleça cooperação técnica com instituições de pesquisa (Embrapa, Rede BioFORT, institutos federais, universidades)
  • Teste a adaptabilidade, produtividade e teor nutricional das variedades em campo experimental público

Produzir, formar e mobilizar comunidades

  • Implante viveiros irrigados e produza ramas-sementes certificadas com manejo agroecológico. Realize oficinas e dias de campo sobre preparo do solo, irrigação e cultivo
  • Promova formações culinárias e incentive quintais produtivos e hortas escolares
  • Organize a distribuição das mudas priorizando assentamentos, associações e agricultores familiares

Escalar, articular e institucionalizar a política

  • Articule com prefeituras, secretarias e parlamentares para garantir apoio logístico, infraestrutura e expansão territorial
  • Estruture canais formais de circulação dos alimentos, com prioridade para a merenda escolar e cozinhas públicas
  • Busque marcos legais (como leis municipais da merenda e programas de quintais produtivos) que garantam continuidade
  • Use eventos, prêmios e redes de inovação pública para dar visibilidade nacional e atrair novos parceiros e financiadores

Acompanhar, monitorar e ajustar continuamente

  • Realize visitas periódicas de acompanhamento técnico às áreas produtivas
  • Monitore produtividade, aceitação das variedades e condições do solo
  • Atue como pólo de referência, formando multiplicadores para descentralizar a produção
  • Ajuste o manejo conforme as realidades climáticas e produtivas de cada comunidade

O Nas Ramas da Esperança demonstra que inovar no enfrentamento à fome exige mais do que recursos: requer tempo, escuta e presença

A experiência mostra que resultados duradouros nascem quando ciência e território caminham juntos. Cada fase do processo reforça que a transformação não depende apenas de tecnologia, mas de relações de confiança, continuidade institucional e compromisso coletivo.

Projetos que cultivam o vínculo entre escolas, governos e comunidades constroem não apenas alimentos mais nutritivos, mas também políticas mais humanas. O que floresce, no fim, é a própria ideia de Espírito Público: servir com ciência, com paciência e com esperança.